
A hormonização é um processo importante para muitas pessoas trans e não binárias, mas também é um tratamento médico que envolve mudanças significativas no organismo. Nos últimos anos, aumentou o número de pessoas que iniciam esse processo sem acompanhamento profissional, seja por dificuldade de acesso ou por informações obtidas na internet. A literatura mostra que essa prática pode trazer riscos relevantes à saúde, principalmente quando não há monitoramento adequado (WPATH, 2022).
Um dos principais riscos está relacionado à dosagem hormonal. Sem acompanhamento, é comum o uso de doses inadequadas, seja em excesso ou insuficientes. Doses elevadas de estrógeno, por exemplo, podem aumentar o risco de eventos cardiovasculares, como trombose, enquanto doses inadequadas de testosterona podem causar efeitos adversos metabólicos. O controle dessas variáveis exige avaliação clínica e laboratorial periódica (WPATH, 2022; BRASIL, 2022).
Outro ponto importante é a ausência de monitoramento por exames. Durante a hormonização, é necessário acompanhar parâmetros como níveis hormonais, função hepática, perfil lipídico e glicemia. Sem esse controle, alterações importantes podem passar despercebidas por longos períodos, aumentando o risco de complicações (BRASIL, 2022; SÃO PAULO, 2015).
A escolha da medicação também é um fator de risco. Existem diferentes formas de hormônio, como comprimidos, géis e injeções, cada uma com características específicas de absorção e segurança. O uso sem orientação pode levar à escolha de opções menos seguras ou inadequadas para o perfil da pessoa, o que impacta tanto o resultado quanto a segurança do tratamento (WPATH, 2022).
Além disso, o uso de bloqueadores hormonais sem supervisão pode trazer efeitos colaterais importantes. Medicamentos como espironolactona ou outros bloqueadores exigem acompanhamento porque podem alterar pressão arterial, função renal e níveis de eletrólitos. Sem esse controle, há risco de efeitos adversos que poderiam ser evitados (BRASIL, 2022).
Outro aspecto relevante é a expectativa em relação aos resultados. Sem orientação adequada, muitas pessoas utilizam protocolos inadequados acreditando que terão resultados mais rápidos. Isso pode levar a frustração, uso excessivo de hormônios e aumento de risco sem benefício adicional. A literatura reforça que a hormonização é um processo gradual e que mais hormônio não significa mais resultado (WPATH, 2022).
Também é importante considerar o impacto na saúde mental. Embora a hormonização esteja associada à melhora do bem estar em muitos casos, a ausência de acompanhamento pode dificultar a identificação de efeitos emocionais adversos ou de necessidades de suporte psicológico durante o processo (WPATH, 2022).
Outro risco é a falta de avaliação de condições pré existentes. Antes de iniciar a hormonização, é importante avaliar histórico clínico, fatores de risco cardiovascular, presença de doenças e uso de outras medicações. Sem essa avaliação, o risco de complicações aumenta, especialmente em pessoas com comorbidades não diagnosticadas (SÃO PAULO, 2015).
A interação medicamentosa também pode ser um problema. Algumas medicações podem interferir na metabolização dos hormônios, alterando seus níveis no organismo. Sem orientação profissional, essas interações podem passar despercebidas e comprometer tanto a eficácia quanto a segurança do tratamento (BRASIL, 2022).
Outro ponto importante é a variabilidade individual. Cada organismo responde de forma diferente à hormonização, e o ajuste de dose é parte fundamental do processo. Sem acompanhamento, não há como adaptar o tratamento à resposta do corpo, o que pode levar tanto a resultados insatisfatórios quanto a efeitos adversos evitáveis (WPATH, 2022).
Na prática clínica, o acompanhamento não tem apenas o objetivo de evitar riscos, mas também de melhorar os resultados. Ajustes de dose, escolha adequada da via de administração e monitoramento contínuo permitem um processo mais seguro, eficaz e alinhado com os objetivos da pessoa.
A principal mensagem é que a hormonização sem acompanhamento não é apenas menos eficaz, mas também potencialmente arriscada. Com orientação adequada, é possível reduzir riscos, otimizar resultados e tornar o processo mais seguro e previsível.
Referências
BRASIL. Telessaúde RS. Protocolos de hormonização em pessoas trans. 2022
SÃO PAULO. Secretaria Municipal de Saúde. Normas de atenção à saúde da população trans. 2015
WPATH. Standards of care for the health of transgender and gender diverse people. Version 8. 2022