Mulheres trans qual deve ser o nível de testosterona durante a hormonização?

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Mulheres trans qual deve ser o nível de testosterona durante a hormonização

Quando se fala em hormonização para mulheres trans, uma das dúvidas mais comuns envolve qual deve ser o nível de testosterona durante o tratamento. Essa pergunta é extremamente importante, porque a testosterona é um dos principais hormônios que precisa ser reduzido no processo de feminização, mas ao mesmo tempo não existe um único valor ideal que sirva para todas as pessoas.

As principais diretrizes internacionais, como as publicadas pela World Professional Association for Transgender Health, orientam que o objetivo da hormonização feminizante é reduzir a testosterona para a faixa fisiológica considerada feminina. Isso geralmente corresponde a valores abaixo de aproximadamente 50 ng/dL, embora alguns protocolos considerem como referência a faixa entre 30 e 100 ng/dL (WPATH, 2022; BOSTON UNIVERSITY, 2023) .

Essa mesma lógica é adotada em protocolos clínicos utilizados no Brasil. Materiais como os do Telessaúde RS e documentos de serviços públicos, como os da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, reforçam que o objetivo do tratamento é alcançar níveis hormonais compatíveis com o gênero afirmado, sempre respeitando segurança clínica e acompanhamento individualizado (BRASIL, 2022; SÃO PAULO, 2015) .

Na prática, isso significa que a testosterona não precisa necessariamente ser zerada. O que se busca é reduzir o hormônio para níveis em que não haja estímulo androgênico significativo, ou seja, evitar efeitos como crescimento de pelos, oleosidade de pele e manutenção de características masculinizantes (WPATH, 2022) .

Um ponto importante é que nem todas as pessoas conseguem atingir os níveis considerados ideais. Estudos mostram que uma parte das mulheres trans em hormonização não atinge simultaneamente os níveis desejados de testosterona e estradiol, mesmo com tratamento adequado. Isso ocorre por variações individuais na resposta hormonal e no metabolismo dos medicamentos (SLACK et al., 2023) .

Além disso, existem diferentes estratégias para reduzir a testosterona. O uso de estrógeno associado a bloqueadores hormonais, como espironolactona ou análogos de GnRH, é uma das abordagens mais utilizadas. Cada uma dessas opções tem impacto diferente na supressão da testosterona, e a escolha depende de fatores clínicos, acesso ao tratamento e tolerância individual (BOSTON UNIVERSITY, 2023) .

Outro ponto essencial é que o número isolado da testosterona não deve ser analisado fora do contexto. A resposta clínica é tão importante quanto o valor laboratorial. Mudanças corporais, bem estar, redução de características androgênicas e segurança metabólica devem ser avaliados em conjunto (WPATH, 2022) .

Por isso, o acompanhamento regular é fundamental. Diretrizes recomendam avaliação periódica com exames laboratoriais e análise clínica ao longo do tratamento, principalmente no primeiro ano, quando ocorrem os principais ajustes hormonais (BOSTON UNIVERSITY, 2023) .

Também é importante destacar que níveis muito baixos de testosterona podem não ser necessários e, em alguns casos, podem trazer efeitos indesejados como fadiga, redução de libido e impacto na qualidade de vida. Isso reforça que o objetivo não é simplesmente reduzir ao máximo, mas encontrar um equilíbrio adequado para cada pessoa (WPATH, 2022) .

Na prática clínica, existe uma tendência crescente de individualização. Embora as diretrizes indiquem valores abaixo de 50 ng/dL como referência, muitos profissionais ajustam o tratamento com base na resposta do paciente, buscando um ponto em que haja feminização adequada sem efeitos adversos relevantes (SLACK et al., 2023) .

Do ponto de vista do autor, é importante considerar que alguns pacientes evoluem bem mesmo com níveis um pouco acima desse alvo tradicional. Em alguns casos, manter a testosterona acima de 50 ng/dL, desde que não haja sinais de efeito androgênico, pode ser uma estratégia válida dentro de um contexto individualizado e acompanhado de perto.

No final, a mensagem mais importante é que hormonização não é um número. É um processo clínico. A meta hormonal serve como guia, mas o tratamento precisa ser adaptado para cada pessoa, respeitando seu corpo, sua resposta e seus objetivos.

 

Referências

BOSTON UNIVERSITY. Practical guidelines for transgender hormone treatment. 2023 

SLACK, D. et al. Achieving target testosterone levels in transgender women. Journal of the Endocrine Society, 2023 

SÃO PAULO. Secretaria Municipal de Saúde. Normas de atenção à saúde da população trans. 2015 

WPATH. Standards of care for the health of transgender and gender diverse people version 8. 2022 

 

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